domingo, 21 de setembro de 2008

Parabéns Avó


Olhar enrugado
Preso no horizonte
Olhando o que não vês
Vazio e tão cheio de solidão
Choro sem água
Lágrima silenciosa
Um coração que não entende
E suporta 80 anos
Olhar enrugado
Triste
Que hoje ousei olhar
Vi
Uma dôr sem aconchego
E senti

Olhar enrugado
Bengala de mim
Avó
Mãe do meu ventre
Por ti
Um amor sem fim


sábado, 13 de setembro de 2008

Quero

E, de repente, percebi.
O tempo passa mas não acontece
A porta não se abre e vocês não voltam
O telefone não toca de manhã, nem de tarde, nem à noite
Mantenho a morada dos mails
Os números de telefone
Nem sei bem porquê
Na esperança irracional de haver resposta
A saudade...posso vê-la de tão forte que a sinto
Incompreensivelmente...ainda não acredito
Fazem-me tanta falta
Quero voltar a ser criança
Sonhar com a perfeição que não existe
Acreditar que a vida é eterna
E que o que conheço será sempre assim
Quero um abraço, um beijo
Quero discutir, chorar com vocês
Saber que adormeço e acordo com o que adormeci
Quero ter medo de vos perder
Quero a vida que sempre conheci
Quero que o meu querer fosse possível
Quero não ser possível tamanho querer

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Pai


Quando nasci, será que te escolhi?


Não me lembro da primeira vez que te vi, gravo no meu coração a paixão que por ti sempre senti.
Não acredito em amor mais ou menos. Acredito que há almas que se pertencem, encontram-se e desencontram-se sem nunca se separarem. Como tu e eu...
Toda a vida me completaste. Foste a presença na minha solidão, o refúgio da minha confusão. Foste a razão do meu sentimento e a paixão do meu pensamento.
Sempre te amei loucamente. Amava profundamente o teu Ego incomparável. Nas minhas veias o sangue corria acelerado pelo ritmo cardíaco desenfreadamente aumentado, os olhos brilhavam e as mãos tremiam, a excitação de não conter o orgulho que me transbordava pelos poros, de cada vez que dizia a alguém "este é o meu Pai!"
Não sei escrever a dor da tua ausência...para mim serás sempre presença.
Mas há momentos em que sinto dificuldade em pensar. Momentos em que a emoção faz KO à razão.
A dor da tua ausência física é dilacerante, irracional
Por vezes apetece-me gritar descontrolada, correr sem rumo, desalvorada, por um qualquer caminho. Espreitar, ansiosa, a cada esquina na esperança de lá te encontrar, correr para ti e abraçar-te até me doerem os braços e me sufocarem as forças. Aí dizes-me "está tudo bem, foi só uma brincadeira"


Mas o momento não acontece...


Desorientada pela cegueira da tua ausência, caio atordoada num qualquer canto do vazio e choro.
É então que fecho as portas e as janelas a este espaço físico em que me deixaste. Viro-me para dentro de mim e dou-te a mão. Oiço as tuas piadas de criança que o tempo nunca adormeceu, vejo as trapalhadas, sinto o teu chamar carinhoso, revivo o afagar de ternura enquanto quando me deitavas, sinto o cheiro do teu amor.
Continuas a ser a presença forte e verdadeira. Sinto-te como a qualquer outro estimulo táctico.
O manto da fatalidade não encobriu a tua vida.
Não há tempo nem espaço que apaguem aquilo que vivemos...memórias de um tempo que jamais poderei esquecer...porque fui imensamente feliz...tão vivas e intensas que as posso sentir...
Sabes pai, vejo-te sempre melhor de olhos abertos. Não gosto de fechar os olhos para pensar em ti.
Ás vezes posso jurar que estás aqui...mesmo ao lado. Reprimo o impulso de olhar por cima do ombro...inutilmente...acabo sempre por olhar. Um relance discreto pelo canto do olho e, ainda que por um instante, acredito ver-te lá.
Gosto de me lembrar da última vez que te vi...Foi o momento da mais bela declaração de amor que já fiz. Foi o momento em que percebi que a alma não é o corpo onde mora.
Se pudesse agarrar o tempo, por um instante que fosse, repetia aquele momento até que a voz me faltasse, a vista me atraiçoasse, a alma me evaporasse...
Debaixo de qualquer ligadura ou lençol, no embrenhado de tubos à tua volta...apenas te vi a ti paizinho...nu de corpo emprestado...duas almas sem forma física que se olham num complemento sem adjectivo ou explicação. Ouço a tua respiração calma...desaparece lentamente o som da maquinaria medicinal que diziam fazer tudo por ti...nunca, jamais, qualquer artefacto me amou por ti.
Naquele momento olhámo-nos e sorriste-me. Sei que o tempo parou...somente nós...duas almas que se pertencem, imunes a qualquer acontecimento espacial.


Soube ali, pai, que és imortal.


Por não acreditar no que sabia acordada, falaste-me à noite, naquele espaço que não é só ilusão...naquele sonho, numa fracção de pensamento, o teu coração falou-me. Não podia dar-te outra resposta. O meu coração gritava de impulso a emergência da minha necessidade de perpetuar um pedaço de realidade, que, sabia-o bem, estava terminada. Mas nunca me ensinaste a ser egoísta...tinhas de ir, pra ela, continuar a tua vida, longe do meu olhar, reforçada no meu coração.


Aquele minuto agonizante...senti-o como se parte de mim mesma fosse contigo...cheguei a pensar que não ia aguentar...quando peguei no telefone sabia...mas deixei-te ir com a calma que eu e tu nunca soubemos ter...deixei cair a lágrima doce do meu agradecimento por me teres deixado despedir de ti...por me teres preparado...por teres escolhido o caminho do amor.


Portámo-nos bem, tu e eu, não achas?


Todos os dias me esforço por merecer cada vez mais o nome que me deste...por aplicar os princípios que me ensinaste, por partilhar com os outros o amor que em mim semeaste...

...e cada dia me orgulho mais por ser tua filha...


Quando me sinto a perder a força, olho...e lá está tu. Gritas-me do alto do cume a esperança que me alcança em certeza...a certeza que o dia em que te ausentaste da minha vista, não foi a última vez que te vi.



AMO-TE MONHEZINHO....JAMAIS TE DEIXAREI MORRER!

domingo, 3 de agosto de 2008

Queria...

Queria poder agarrar no relógio da vida
Recuava-o como se faz na hora de Inverno
E o tempo da minha vida acontecia outra vez
Magia
Eu e vocês, juntos, mais uma vez
Tirava-lhe então a pilha e parava-o no tempo
Num abraço que o relógio não podia adiantar
Ficava protegida de todo o mal do mundo
Da dor, do sofrer
No vosso colo, apenas o momento podia acontecer
Ninguém nos separava
E eu não chorava
A saudade não me alcançava
E ausência não me arrebatava
Nem me matava
De tanto querer....e não poder!

domingo, 27 de julho de 2008

Finalmente...O Abraço!!

Há coisas que se guardam para nós e não se partilham...

Hoje tive um sonho maravilhoso, daqueles tão pessoais e tão intensos que, mesmo que quisesse, não o conseguiria partilhar.

Qualquer mãe e qualquer filha, sabem a ligação que as une, aquela ligação tão natural e tão pura como o próprio respirar e bater do coração. Tão bonita, que qualquer palavra no dicionário, qualquer termo inventado, é medíocre para adjectivar tal sentimento.

Mas há coisas que quero dizer, para me lembrar quando me sinto pior e para que quem me lê, possa encontrar também o consolo que hoje sinto.

Sinto-me leve e agradavelmente comovida. Transbordo hoje amor e recordação.

Nos últimos tempos tenho pensado mais nela do que nele. Porque me custou mais consciencializar da partida dela, e porque com o meu pai, a relação que tínhamos aqui era já de tal forma física e emocionalmente aberta, que nada, nada, ficou por resolver. Mas com a minha mãe, o abraço e a declaração de verbal de sentimentos era mais difícil. Maior dificuldade em pedir desculpas e em manifestarmos fisicamente o amor uma pela outra. Ou, talvez, ainda, porque não tive oportunidade de a abraçar uma última vez...a verdade...é que havia aqui um vazio no meu coração, que finalmente pude preencher.

Hoje...muito mais que um sonho, o sono deu-me uma prenda de Deus....deixou-os visitar-me durante a noite. Ele sorriu o tempo todo e observou, deixando-nos fazer o que faltava. Abracei-a com tanta força, num abraço que a forma física não permite. Não quero falar disso, porque é meu e só meu, e também não precisa de escrita para ficar gravado, já está colado na minha memória, com uma intensidade impossível de quebrar.

Mas quero dizer a todos os que acreditam, que eles estão bem e felizes. E quero dizer aos não crentes, que tenham fé. Não é preciso acreditar num Deus católico, ir à igreja, para esta fé que vos falo. Mas imaginem a força que dá, saber que eles permanecem neste mundo, saber que os posso ver e que sei que os irei voltar a encontrar, num sítio onde a dor não existe, e tudo é amor.

Hoje estou leve e feliz. Abracei a minha mãe e o meu pai e isso, é felicidade que não se mata.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Teresa

Desisto de procurar...faltam-me as palavras para dizer o que mereces. Desde que iniciei este blog quero escrever sobre ti.

Mas sabes que é difícil escrever sobre o que sempre se conheceu, embora agora eu desfrute da minha parte e da parte dela. É muita amizade e ela transborda, atropelando-me as palavras e os pensamentos.

A minha mãe sempre me disse: "Não há amiga como a Teresa Gato".
Nunca duvidei...mas agora sei-o, tão profundamente interiorizado, como qualquer outra raiz de amor fixa no meu coração.

Não se explica, transborda de verdade como naquele abraço à Joana, que só nos sabemos ler, grita na voz, nos olhares, nos gestos...no consolo do meu coração de cada vez que me ligas e pareces adivinhar o que me vai na alma... ...e isso não sei escrever....

Sabes...por vezes quando ouço o tlm e vejo o teu nome...tantas vezes na precisa altura em que me apetece ligar-lhe e se me crava a chaga do saber que não posso...penso...foi ela...

...e sei que ficou aqui, em parte, na mãe que vejo em ti

terça-feira, 8 de julho de 2008

Amor


E foi assim, inesperadamente, que a felicidade abstraída voltou a cumprimentar-me.

Várias vezes, durante largos minutos daquela tarde, esqueci-me da ausência. Diverti-me, sorri, gargalhei, como à quatro meses e meio não o fazia. A melancolia que entre-cortou esses sorrisos, foi terna e bela. Estavam lá, sei-o porque o senti...nas memórias de um tempo que o relógio da vida não pode apagar. Nos abraços, beijos, olhares de uma cumplicidade que a vida nos deu e sabemos todos não ser possível perder...jamais.

O teu olhar, minha Tucha, naquele momento em que passámos para ti uma prenda de amor, símbolo de uma felicidade cúmplice, casada muito além de um registo de conservatória, e que desejamos para vocês dois...mágico, inesquecível, um agradecimento mudo que só o coração sabe falar e ler. O meu ser está cheio por esta entrega que sinto ter sido um desejo partilhado por quem o deu e por quem o usou antes de ser teu. Será sempre, no teu decote, muito mais que o brilho do metal...tu sabes.

Quando desceste aquelas escadas...o mundo parou. Fiquei tão feliz. As lágrimas correrem-me...mas de felicidade. Não pensei que faltava alguém...eles estavam lá e pude sentir-lhes as mãos unidas nas minhas, as bocas que te beijaram comigo, os olhares ternos e orgulhosos de quem vê as juras de felicidade de uma menina que era como sua filha.

O abraço da minha Cebolinha, da minha Ana e do meu Beto...tanto dissemos naquele aperto, muito mais do que o que se pode ver ou tocar, mas que todos sabemos estar lá.

Foi uma tarde e uma noite maravilhosas...tudo foi lindo.

E minha querida, irmã, o teu gesto...o teu "boquê"...é mais que alguma vez qualquer "longe" ou "tarde" pode da minha memória apagar.

OBRIGADA!!


Para ti, para vocês, família, TODA A FELICIDADE que este mundo possa albergar!

domingo, 29 de junho de 2008

Saudade

E fiquei assim...
Deixei que todo o sentir tomasse conta de mim.
Deixei-o fluir e fazer os estragos que entendesse no meu ser. Cada ferida, cada chaga...cruelmente cravada, sem reacção, sem oposição.
Silenciosamente, apenas lágrimas de um choro que não sabia ser possível chorar.
Podes vir, saudade, com tudo aquilo que tens e não te conhecia, sem o embelezamento que te faz única no português.
Fere-me e arrebata-me! Deita-me ao chão com essa violência difícil de suportar.
Chorarei agora todas as lágrimas de sangue...até que o tempo torne as feridas em cicatrizes, nas quais passarei as mãos e sentirei a macieza, no meio das doces lágrimas que chora a terna saudade...

sábado, 21 de junho de 2008

Sonhos

Primeiro foi com ela, depois com ele e, por último, com os dois.

3 sonhos diferentes no cenário, semelhantes na essência.

De repente ela estava viva. Tudo tinha acontecido igual...o acidente, a morte...mas, um ressuscitar aconteceu.
Não era uma segunda oportunidade, porque alguém me dizia no sonho "sabes que isto é temporário, é só por uns dois meses, depois começam os problemas renais, hepáticos...e ela vai outra vez.
No entanto, ao mesmo tempo, parecia haver a possibilidade dela sobreviver. Era uma incógnita se morria novamente ou sobrevivia como se nada tivesse acontecido.
O mais estranho, é que eu estava incrédula. Imensamente feliz, mas incrédula. Porque olhava para ela e ela movia-se de um lado para o outro, sem parar (também, quantas vezes terei eu visto a minha mãe sentada??!!). Fazia bolos, comida, cirandava. Sorria. Toda ela! Alheia a tudo o que se passava. Acho que ela sabia que ia morrer, no sonho, mas comportava-se como se isso não tivesse a menor importância para o dia que decorria. Nesse sonho, o meu pai estava vivo...

Depois foi a vez dele. Tudo igual. O acidente, a morte da minha mãe e depois a dele. Mas aqui, a morte vs vida não era uma incógnita. Ele ia passar uma prova. Se vencesse, ficava cá. E lá estava ele, vestido qual cavaleiro, pronto para a luta. Não sei se venceu o combate....mas sei que não o vi tão feliz como a minha mãe.... Nesse sonho, a minha mãe não estava viva.

Depois foi com os dois. Não me recordo neste sonho. Sei apenas que novamente tudo tinha acontecido, mas eles tinham voltado...havendo a possibilidade de partirem novamente...

Já pensei e repensei estes sonhos, na verdade que eles contêm, no que significam.
Acho que os dois meses do sonho com a minha mãe, foram os dois dias...sempre acreditei que ela não morresse...o amor não responde a percentagens médicas. E não podia imaginá-la de outra forma que não fosse a viver o dia a dia, sem pensar no amanha.
Com o meu pai...a luta que ele travou...o meu medo do resultado...a minha incapacidade de o imaginar feliz sem a minha mãe.

Os dois vivos juntos....simplesmente O sonho...

A verdade, é que se dessem a oportunidade de os ter junto de mim outra vez, ainda que soubesse que era por pouco tempo e que teria de passar por tudo outra vez, eu aceitava. Nada de mau do que me aconteceu supera a vida imensamente feliz que eles me deram a seu lado.

Por outro lado, penso muitas vezes em como seria o meu hoje, se o meu pai tivesse ficado. Por mais casais que eu veja ficarem sem o seu amado(a), por mais que eu conhecesse a força do meu pai...não consigo conceber a sua existência sem a minha mãe. Por vezes imagino-o sozinho naquela casa, o seu dia a dia sem em ela e não concebo essa possibilidade. Amo o meu monhezinho com todos os poros do meu ser, e a única coisa que se pode sobrepor a minha vontade de o ter junto de mim, é a sua felicidade. A minha pela dele. Não sei como iria aguentar vê-lo na sua profunda tristeza. Acho que o que sinto, não se compara ao que ele iria sentir...e ao que eu sentiria por o ver assim.

Depois...cheguei a outra conclusão. O facto de terem partido os dois, não me deixa sentir a plenitude da dor por cada um. Se imagino o meu pai vivo, sinto a dor da perca da minha mãe numa intensidade superior...porque me concentro nela.

Toda a minha vida pensei que iria ficar primeiro sem pai...e agora, em nenhum sonho imagino a minha mãe viva e o meu pai ausente....porque sei que o que mudou a minha vida foi aquele dia 20...foi aí que morreu a vida que eu conhecia, acontecesse o que acontecesse depois.

Antes perturbavam-me estes sonhos...porque acordava e via o vazio da ausência com o amargo na boca de não poder abraçar os pensamentos.

Agora desejo sonhar...sei criar a minha realidade paralela, em que dou forma ao sentimento e materializo recordações. Encho o meu balão de memória e subo alto. Fugindo ao peso da saudade, tenho um lugar só meu, onde vejo, sinto e toco. E quando a vigília me chama e eu desço de novo ao físico, sei intimamente que a a realidade não é só razão, o sonho tem lugar, e será sempre uma mentirosa verdade, que de tempos a tempos, eu e vocês, estamos à distância de um olhar.

sábado, 7 de junho de 2008

O Peso da Mudança

A mudança custa tanto...
De onde virá esta resistência do ser humano ao diferente? Este contracenso de desgostar da rotina e simultaneamente renegar a mudança?
Custa-nos sempre mudar...de casa, de emprego, de relação, de visual...ainda que para melhor, a mudança assusta porque é desconhecida e tendemos a temer o que não conhecemos.
A minha vida mudou, radicalmente, mas este processo de transição não tem que trazer necessariamente só coisas más. Custa porque foi imposto, sem escolha e implica uma mudança de formas ausentes que não queria experimentar. Custa porque tudo o que até aqui era a realidade que conhecia, não se voltará a repetir. Custa, porque temo o desconhecido. Custa, porque não posso voltar atrás. Tento encarar isto como uma evolução e manter-me receptiva à vivência das coisas novas que até aqui ocorriam sempre da mesma maneira e que sempre esperei ver repetidas por muitos e muitos anos. Mas a verdade, gostava desse comodismo...do que tinha por certo e inabalável.
Não aconteceu. E agora? Valerá a pena remoer, rebuscar, pensar como era? Não creio. Mas ainda não consegui abrir totalmente o coração à mudança.
Agora que a dor é silenciosa, agora que a verdade me atropela e a consciência volta a mim, o receio, o medo, a surpresa, a novidade, o novo...a saudade...explodem em todo o seu esplendor, no bom e no mau.
Por vezes penso que estou a reaprender a viver, que fui transportada para uma nova realidade e tenho de aprender a viver nela...adaptação...a terra continua redonda, a geografia mapeada, os relógios contando e somando...mas a ausência que os meus olhos alcançam ainda é muito vazia...

Não questiono a vida, a nossa ignorância do acontecer é demasiado grande para que eu a julgue.
Sim, temo a mudança, mas não lhe coloco entraves...receosa, assustada, mas esperançosa, espero do futuro o bem que ele certamente trará...mas continuo grande parte do meu dia a viver esta segunda vida que criei em mim, esta realidade paralela em que finjo que há momentos que não aconteceram...
Mas não traio os genes que carrego na alma e no peito, as memórias e os olhares que não se apagam...tive neles, toda a vida e até ao seu último suspiro, os exemplos da força que contrariam a própria ciência, a força que vai além do corpo...
...Não me sento à espera da vida...corro para a não deixar acontecer antes de mim.

...No meu coração, lado a lado com a saudade, um sonho...o de voltar a ser imensamente feliz.