sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Encontrando-me


É de uma sensação tão certa,
que faz sentir amor.

É este o meu lugar!

Pertenço à floresta e ao mar.

Sou do espaço que agora piso

e

Seguindo as setas do destino

Acabarei por reencontrar o meu tempo

No mesmo saber genuíno

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Força

Estou orgulhosa de ti avó!
Tanto que a alegria me quer romper o coração!
Fizeste de mim, hoje, uma pessoa mais feliz
Mais forte,
Melhor!

Artrose injusta a do coração
Sem fisioterapia ou anti-inflamatório
Subiste hoje tantos degraus sem bengala,
E embora fique feliz por ter contribuído
O Nobel da força é inteiramente teu!

Ah forte guerreira!
Tanto que me ensinam essas rugas
Tanto me apoiam essas gargalhadas
É música, é elixir, são osteócitos

São pedaços de ti
Que fazem crescer com amor e carinho
Um e mais um
De todos estes...Pedaços de mim
Nesse pequenino tão pequeno que é o simples
Encontro agora tanta grandeza gigante
Tão atento está o meu olhar
Tão sensível o meu ouvir
Tão forte o meu sentir
Encantam-me as árvores e o azul do céu
Puxa-me a lágrima o sol quando se põe
Faz-me sorrir o vento
E eu sinto-me afortunada...
Vejo, oiço, sinto...
Provo, respiro...
Vivo...
Rencontrei a criança perdida em mim
E de mão dada
Passinho a passinho
Sigo pela vida deslumbrando-me
Com o que sempre lá esteve
E eu olhava...mas não via!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008


Ás vezes vem de mansinho, astuta, cautelosa

Avalia, espera

E, inesperadamente, ataca-me!

Solta-se então numa gargalhada

Deixando o corpo num frenesim de bem estar

Limpa a alma e desenha um sorriso

Mesmo quando eu pensava que não podia

Ela vem e caça-me

E eu deixo-me ir ao longo do dia

Arrastada qual troféu

Nas costas da Alegria!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Até onde podemos adiar a vida?

Ás vezes é assim, estranho.
São dias sem sol nem lua, sem bonito ou feio, sem frio ou calor...sem alegria ou dor.
São e pronto.
Acordam e adormecem sem somar minutos.
O corpo inerte caminha sem andar, olha sem ver, acontece sem viver, vive sem aproveitar.
E depois, o hoje já é amanhã e há tantas coisas que ficam adiadas para um futuro sonhado ontem.

Até onde podemos adiar a vida?

Estou assim, presa num passado do qual não me quero libertar.
Qual menina mimada, apetece-me bater o pé e fazer birra.
Não me apetece encarar a vida como ela está.
Mas não o sei fazer....
Acordo e tenho vontade de viver.
Sonho com um futuro limpo, optimista, sem me arrepender.
Raízes profundas, sentimentos fortes, valores solidamente incutidos.

Não sei sair de mim.

Sou a força dela com o coração dele.
Não me sei zangar, não sei culpar, não posso conter em mim revolta.
Sou a vontade de andar sem olhar para trás.

Mas não sei sair de mim.

Tenho medo de avançar e medo de ficar parada.
Sou rio que tem medo da foz.
Não quero ser lago, nem tempestade de mar.

Até onde podemos adiar a vida?

Estou meio perdida
Tenho medo da vida,
Mas muito mais temo,
Que com o meu bilhete de ida
Fique a ver passar a vida
...sem a viver!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Corpo ao Manifesto


Acordei cedo...

Saí para fora e o pinhal brindou-me com uma manhã deliciosamente bela.

Fiquei assim um tempo bebendo o ar conhecido e ainda assim, sempre renovado.

Deixei os olhos vingarem-se, abri um sorriso ao céu.

Depois cerrei-os e deixei a brisa brincar com a minha pele.

Não sei quanto tempo me mantive nesta dança nupcial, de um corpo que conhece e obedece a esta Natureza da qual é parte.

Quando me sentei para comer, acompanhada dos pássaros que me vieram cantar e das memórias que me vieram visitar, pensei em vocês.

Era esta a altura em que pegava no telefone e te ligava para saber como "está tudo".

Lembrei-me que logo no início desta nova vida, me reprimia e culpava nos momentos em que sentia vontade de rir.

Apercebi-me como tenho rido cada vez menos. Apercebi-me que o "tudo" ficou vazio demais...e o que era vago agora diz muito.

Bebi a lágrima da doce saudade e deixei-me encharcar de memórias.

Respirei fundo e ergui o corpo ao tempo.

É hora de subir mais um degrau...Hoje não virei as costas ao dia, deixei que todo o sentir tomasse conta de mim...permiti-me...novamente.

Um formigueiro de excitação percorreu-me o corpo, quando me apercebi, sem culpa, da data que não vi passar.

E, novamente sorri.

Fui lá fora e brindei a noite com um sorriso de agradecimento.

Tão belo este Mundo...como posso não me encantar

Enquanto me permitires a memória, meu Deus,

A saudade não me irá matar

domingo, 21 de setembro de 2008

Parabéns Avó


Olhar enrugado
Preso no horizonte
Olhando o que não vês
Vazio e tão cheio de solidão
Choro sem água
Lágrima silenciosa
Um coração que não entende
E suporta 80 anos
Olhar enrugado
Triste
Que hoje ousei olhar
Vi
Uma dôr sem aconchego
E senti

Olhar enrugado
Bengala de mim
Avó
Mãe do meu ventre
Por ti
Um amor sem fim


sábado, 13 de setembro de 2008

Quero

E, de repente, percebi.
O tempo passa mas não acontece
A porta não se abre e vocês não voltam
O telefone não toca de manhã, nem de tarde, nem à noite
Mantenho a morada dos mails
Os números de telefone
Nem sei bem porquê
Na esperança irracional de haver resposta
A saudade...posso vê-la de tão forte que a sinto
Incompreensivelmente...ainda não acredito
Fazem-me tanta falta
Quero voltar a ser criança
Sonhar com a perfeição que não existe
Acreditar que a vida é eterna
E que o que conheço será sempre assim
Quero um abraço, um beijo
Quero discutir, chorar com vocês
Saber que adormeço e acordo com o que adormeci
Quero ter medo de vos perder
Quero a vida que sempre conheci
Quero que o meu querer fosse possível
Quero não ser possível tamanho querer

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Pai


Quando nasci, será que te escolhi?


Não me lembro da primeira vez que te vi, gravo no meu coração a paixão que por ti sempre senti.
Não acredito em amor mais ou menos. Acredito que há almas que se pertencem, encontram-se e desencontram-se sem nunca se separarem. Como tu e eu...
Toda a vida me completaste. Foste a presença na minha solidão, o refúgio da minha confusão. Foste a razão do meu sentimento e a paixão do meu pensamento.
Sempre te amei loucamente. Amava profundamente o teu Ego incomparável. Nas minhas veias o sangue corria acelerado pelo ritmo cardíaco desenfreadamente aumentado, os olhos brilhavam e as mãos tremiam, a excitação de não conter o orgulho que me transbordava pelos poros, de cada vez que dizia a alguém "este é o meu Pai!"
Não sei escrever a dor da tua ausência...para mim serás sempre presença.
Mas há momentos em que sinto dificuldade em pensar. Momentos em que a emoção faz KO à razão.
A dor da tua ausência física é dilacerante, irracional
Por vezes apetece-me gritar descontrolada, correr sem rumo, desalvorada, por um qualquer caminho. Espreitar, ansiosa, a cada esquina na esperança de lá te encontrar, correr para ti e abraçar-te até me doerem os braços e me sufocarem as forças. Aí dizes-me "está tudo bem, foi só uma brincadeira"


Mas o momento não acontece...


Desorientada pela cegueira da tua ausência, caio atordoada num qualquer canto do vazio e choro.
É então que fecho as portas e as janelas a este espaço físico em que me deixaste. Viro-me para dentro de mim e dou-te a mão. Oiço as tuas piadas de criança que o tempo nunca adormeceu, vejo as trapalhadas, sinto o teu chamar carinhoso, revivo o afagar de ternura enquanto quando me deitavas, sinto o cheiro do teu amor.
Continuas a ser a presença forte e verdadeira. Sinto-te como a qualquer outro estimulo táctico.
O manto da fatalidade não encobriu a tua vida.
Não há tempo nem espaço que apaguem aquilo que vivemos...memórias de um tempo que jamais poderei esquecer...porque fui imensamente feliz...tão vivas e intensas que as posso sentir...
Sabes pai, vejo-te sempre melhor de olhos abertos. Não gosto de fechar os olhos para pensar em ti.
Ás vezes posso jurar que estás aqui...mesmo ao lado. Reprimo o impulso de olhar por cima do ombro...inutilmente...acabo sempre por olhar. Um relance discreto pelo canto do olho e, ainda que por um instante, acredito ver-te lá.
Gosto de me lembrar da última vez que te vi...Foi o momento da mais bela declaração de amor que já fiz. Foi o momento em que percebi que a alma não é o corpo onde mora.
Se pudesse agarrar o tempo, por um instante que fosse, repetia aquele momento até que a voz me faltasse, a vista me atraiçoasse, a alma me evaporasse...
Debaixo de qualquer ligadura ou lençol, no embrenhado de tubos à tua volta...apenas te vi a ti paizinho...nu de corpo emprestado...duas almas sem forma física que se olham num complemento sem adjectivo ou explicação. Ouço a tua respiração calma...desaparece lentamente o som da maquinaria medicinal que diziam fazer tudo por ti...nunca, jamais, qualquer artefacto me amou por ti.
Naquele momento olhámo-nos e sorriste-me. Sei que o tempo parou...somente nós...duas almas que se pertencem, imunes a qualquer acontecimento espacial.


Soube ali, pai, que és imortal.


Por não acreditar no que sabia acordada, falaste-me à noite, naquele espaço que não é só ilusão...naquele sonho, numa fracção de pensamento, o teu coração falou-me. Não podia dar-te outra resposta. O meu coração gritava de impulso a emergência da minha necessidade de perpetuar um pedaço de realidade, que, sabia-o bem, estava terminada. Mas nunca me ensinaste a ser egoísta...tinhas de ir, pra ela, continuar a tua vida, longe do meu olhar, reforçada no meu coração.


Aquele minuto agonizante...senti-o como se parte de mim mesma fosse contigo...cheguei a pensar que não ia aguentar...quando peguei no telefone sabia...mas deixei-te ir com a calma que eu e tu nunca soubemos ter...deixei cair a lágrima doce do meu agradecimento por me teres deixado despedir de ti...por me teres preparado...por teres escolhido o caminho do amor.


Portámo-nos bem, tu e eu, não achas?


Todos os dias me esforço por merecer cada vez mais o nome que me deste...por aplicar os princípios que me ensinaste, por partilhar com os outros o amor que em mim semeaste...

...e cada dia me orgulho mais por ser tua filha...


Quando me sinto a perder a força, olho...e lá está tu. Gritas-me do alto do cume a esperança que me alcança em certeza...a certeza que o dia em que te ausentaste da minha vista, não foi a última vez que te vi.



AMO-TE MONHEZINHO....JAMAIS TE DEIXAREI MORRER!

domingo, 3 de agosto de 2008

Queria...

Queria poder agarrar no relógio da vida
Recuava-o como se faz na hora de Inverno
E o tempo da minha vida acontecia outra vez
Magia
Eu e vocês, juntos, mais uma vez
Tirava-lhe então a pilha e parava-o no tempo
Num abraço que o relógio não podia adiantar
Ficava protegida de todo o mal do mundo
Da dor, do sofrer
No vosso colo, apenas o momento podia acontecer
Ninguém nos separava
E eu não chorava
A saudade não me alcançava
E ausência não me arrebatava
Nem me matava
De tanto querer....e não poder!